Abysmo
Nenhum passo em círculo se perde. Mariana Viana leu uma das obras seminais de Herberto Helder como se os contos fossem de indicações concretas de partida, mapa de acesso ao lugar do sonho. E o seu olhar regressou transfigurado, de um modo que nenhuma das formas lhe parecia a mesma. Compôs então um livro híbrido, que cruza as descrições alucinadas dos primeiros viajantes com o caderno de campo dos biólogos ilustrados e as notas do psicanalista conhecedor das grandes tradições do transe hipnótico. O que agora se expõe são algumas centenas de folhas em formato médio «arrancadas» desse caderno (grafite e lápis de cor sobre papel), acompanhadas de um par de montagens de desenhos (grafite, lápis de cor, pastéis de óleo, acrílico sobre papel) em caixas tridimensionais. O gesto, a técnica e o modo servem o desfile das mais espantosas figuras de bestiário, filhas de uma notável contaminação das formas.
Mariana Viana (1970) coordenadora do mestrado de ilustração artística do ISEC e Universidade de Évora. Estes desenhos são a base da sua tese de Doutoramento: «Os Passos em Volta de Herberto Helder: A Ilustração enquanto Arte Onírica» (Universidade de Évora, 2012).